Mercado Livre de Energia

O mercado livre de energia é um ambiente competitivo onde os consumidores podem escolher o seu fornecedor de energia. Este ambiente competitivo traz economias para os consumidores, mas por outro lado, surgem outros riscos que precisam ser controlados.

O QUE É O MERCADO LIVRE DE ENERGIA

O mercado livre de energia é a forma mais direta de reduzir custos em energia de uma empresa sem nenhum investimento. No entanto, para que o consumidor de energia possa se aproveitar de todos os benefícios deste mercado, é necessário se aprofundar neste universo.

No Brasil, existem dois ambientes de contratação de energia, sendo eles o mercado cativo e o mercado livre de energia. É desta forma que o mercado de energia está organizado. Por motivos históricos de mercado, o consumidor de energia se enquadra como um consumidor cativo. No entanto, desde que ele atenda a alguns requisitos, ele pode optar por migrar para o mercado livre de energia. O termo Ambiente de Contratação Livre (ACL) também pode ser utilizado para designar o mercado livre de energia, como é popularmente conhecido.

O mercado livre de energia teve seu surgimento em 1995 através da Lei nº 9.074, que viabilizou que os consumidores comprassem energia diretamente dos fornecedores. No entanto, para a migração para o mercado livre de energia, é necessário se atentar aos prazos dos contratos com a distribuidora local no mercado regulado. Caso os prazos não sejam respeitados, poderá haver cobrança de multas, que podem inviabilizar a migração se o momento for escolhido de forma incorreta.

Quando o mercado livre de energia foi criado em 1995, era necessário que o consumidor tivesse uma demanda contratada de 10MW e que estivesse conectado em tensão superior a 69kV para participar deste mercado. Neste caso, os consumidores poderiam adquirir energia de empresas produtoras independentes de energia.

Três anos depois, a opção para compra de energia aumentou, pois além da possibilidade de comprar das empresas produtoras independentes, os consumidores poderiam comprar sua energia também de qualquer concessionário, permissionário ou autorizado do mesmo sistema interligado. Foi neste momento em que foi criada a figura das comercializadoras de energia, ampliando o leque de empresas que poderiam comercializar energia elétrica para:

  • Geradores de energia
  • Comercializadoras
  • Concessionários e permissionários de serviços públicos de distribuição de energia
  • Produtores independentes
  • Importadoras e exportadoras

Depois de cinco anos que o mercado livre de energia foi criado, a demanda contratada limite para o consumidor estar apto a migrar para o mercado livre foi reduzido para 3MW, mas mantendo-se a tensão de conexão de 69kV. Futuramente, esta tensão mínima de conexão foi extinta junto com a redução da demanda contratada mínima. Atualmente, para se tornar um consumidor livre, é necessário ter uma demanda contratada superior a 1MW, sendo que este limite irá reduzir para 500kW a partir de janeiro de 2023.

No mercado livre de energia existe também a figura do consumidor especial. O consumidor especial pode adquirir somente ‘energia incentivada’ no mercado livre de energia. Já o consumidor livre pode comprar qualquer tipo de energia, seja ela ‘energia incentivada’ ou ‘energia convencional’, que são as duas categorias de energia disponível no mercado.

A energia incentivada são energias de fontes renováveis: solar, eólica, biomassa (geralmente bagaço de cana-de-açúcar) e PCH (pequenas centrais hidrelétricas). Consumidores que possuam demanda contratada acima de 500kW podem se enquadrar como consumidor especial. Além disso, caso a unidade consumidora possua menos de 500kW, ela pode fazer um processo de comunhão de cargas (comunhão de fato ou de direito) e se enquadrar como consumidor especial nestes casos.

Existe um grande crescimento do mercado livre de energia nos últimos anos, seja com relação à quantidade de energia transacionada ou números de consumidores participantes. Além da redução do limite de demanda para um consumidor se tornar livre, está em curso a abertura do mercado livre de energia para todos os consumidores conectados em alta tensão (Grupo A), chegando até consumidores residenciais (Grupo B).

Desta forma, cada vez mais os consumidores terão flexibilidade para escolher o seu próprio fornecedor de energia, podendo reduzir seus custos, colocar em prática suas políticas de sustentabilidade, melhor sua previsão orçamentária e ser livre para escolher o seu fornecedor de energia.

COMO FUNCIONA O MERCADO LIVRE DE ENERGIA

Para entender o funcionamento do mercado livre de energia, antes de qualquer coisa, é necessário entender a divisão que existe no setor elétrico entre o mundo físico e o mundo comercial.

MUNDO FÍSICO

O mundo físico refere-se à geração, transporte e consumo da energia fisicamente, como o próprio nome quer dizer. No mundo físico, tanto geradores, autoprodutor ou produtor independente de energia podem gerar energia. A energia gerada é transportada pelas empresas de transmissão e distribuição. Finalmente esta energia é consumida pelo consumidor final, que podem ser empresas, governo, iluminação pública ou residências.

As empresas de transmissão se diferem pelas empresas de distribuição pela característica do transporte realizado com a energia. A transmissão é responsável por transportar grandes quantidades de energia por grandes distâncias. Por este motivo trabalham em tensões elétricas maiores, para garantir melhor eficiência no transporte. Já as empresas distribuidoras são responsáveis por distribuir a energia para cada usuário em determinada região, independentemente do tamanho deste consumidor.

O mundo físico é controlado pelo ONS (Operador Nacional do Sistema), que busca otimizar a geração e o transporte de energia para atender ao consumo de energia em cada instante. Esta otimização é necessária para utilizar o mínimo de recurso possível para atender o consumo instantâneo de energia no Brasil.

MUNDO COMERCIAL

O mundo comercial diz respeito aos contratos de compra e venda de energia de cada empresa. No mercado cativo (ou ACR), as distribuidoras compram energia de empresas geradoras e produtoras independentes através dos leilões de energia organizados pela ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) e CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica). Por ser um mercado regulado e para garantir a modicidade tarifária, garantindo a acessibilidade a todos os consumidores, os preços de compra são repassados para os consumidores através das tarifas de energia, que são reguladas pela ANEEL.

No mercado livre de energia, por se tratar de um ambiente livre de comercialização, os agentes ficam livres para firmarem seus contratos de compra e venda de forma bilateral, acordando entre as partes características como valores e quantidade de energia. Desta forma, empresas que são geradoras de energia, produtores independentes, comercializadoras ou consumidores podem trabalhar a sua própria estratégia para se adequarem ao mercado livre de energia.

CONEXÃO ENTRE O MUNDO FÍSICO E O COMERCIAL

Tanto o mundo físico como o mundo contratual são regidos de forma totalmente independente. No entanto, existe uma conexão entre estes dois mundos que pressiona os agentes a ter um portfólio de contratos de compra ou venda de energia que seja compatível com sua geração ou consumo de energia.

A CCEE realiza mensalmente a contabilização do mercado de curto prazo, onde é feito um comparativo entre o mundo físico e o mundo contratual. Considerando como exemplo um consumidor, caso este tenha uma quantidade de compra de energia maior que o seu consumo, ele receberá a diferença que está contratada acima do seu consumo valorada pelo PLD (Preço da Liquidação das Diferenças). De forma análoga, caso este consumidor tenha uma quantidade de energia contratada abaixo do seu consumo, esta diferença também será valorada pelo PLD, mas neste caso, ele terá que pagar por esta energia.

É importante ressaltar que caso o consumidor tenha uma quantidade de compra de energia menor que o seu consumo, existe uma possibilidade de receber penalidades por falta de lastro. Esta penalidade existe para manter a adequabilidade do sistema, ou seja, para garantir que para todo o consumo de energia haverá uma respectiva geração.

O FUNCIONAMENTO DO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

A figura abaixo ilustra de forma didática como o mundo físico e o mundo contratual se relacionam, sendo este último dividido entre ambiente de contratação livre (ACL) e regulado (ACR).

COMO FUNCIONA O MERCADO LIVRE DE ENERGIA

De forma geral, os geradores de energia podem vender sua energia para os consumidores ou para as comercializadoras, no que pode ser chamado de mercado primário de energia elétrica. As comercializadoras, por sua vez, vendem esta energia para os consumidores ou para outras comercializadoras, no chamado mercado secundário de energia elétrica. Consequentemente, os consumidores podem comprar energia no mercado livre de comercializadoras ou diretamente dos geradores.

MERCADO CATIVO E MERCADO LIVRE DE ENERGIA ELÉTRICA

Para entender melhor o funcionamento e as diferenças destes dois mercados, é válido analisar a figura abaixo, onde é realizada tal comparação para ambos mercados.

mercado livre de energia versus cativo

No mercado cativo, o consumidor paga somente uma fatura para a distribuidora, sendo que nela está incluído os seguintes custos embutidos nas tarifas praticadas:

  • Custo do fio: custo relacionado à utilização da infraestrutura de cabos elétricos que transporta a energia dos geradores até os consumidores;

  • Custo da energia: custo relacionado à compra da energia elétrica pela distribuidora;

  • Encargos: encargos do setor elétrico que são pagos pelos consumidores;

  • Tributos: impostos referentes aos produtos e serviços adquiridos; e

  • Bandeira tarifária: tarifa estabelecida mensalmente devido aumento de geração térmica.

Por outro lado, no mercado livre de energia, seja para um consumidor livre ou especial, a estrutura de custo altera-se, conforme abaixo:

  • Custo do fio: o mesmo conceito aplicado ao mercado cativo sendo que continua sendo pago para a distribuidora responsável pela região;

  • Custo da energia: relacionado à compra de energia no mercado livre, e pago diretamente ao fornecedor ou fornecedores escolhidos;

  • Encargos: encargos do setor elétrico que são pagos pelos consumidores, sendo que parte deles continua sendo cobrado na tarifa das distribuidoras e parte deles passam a ser pagos diretamente para a CCEE;

  • Tributos: impostos referentes aos respectivos produtos e serviços adquiridos. Dependendo do estado, pode haver cobrança dos impostos da compra da energia na fatura da distribuidora, sendo que esta forma de cobrança não leva a nenhum custo adicional; e

  • Consultoria: consultoria, gestora ou representante CCEE para as operações realizadas no mercado livre de energia.


Tendo este entendimento básico, podemos avaliar a tabela abaixo, que nos mostra com mais profundidade um comparativo entre o mercado cativo e o mercado livre de energia.

MERCADO LIVRE DE ENERGIA VERSUS CATIVO

O comparativo acima pode ser deduzido da forma como o mercado cativo e o mercado livre de energia funcionam. No entanto, alguns pontos valem ser ressaltados.

A previsão orçamentária no mercado livre de energia é maior que no mercado cativo. O principal motivo é que no mercado cativo o consumidor fica totalmente sujeito às variações das tarifas das distribuidoras, que apesar de ser possível de serem previstas tecnicamente, existe grande influência política que torna sua previsão bastante desafiadora. No mercado livre de energia, como o consumidor negocia seus contratos, é possível fazer uma previsão muito melhor dos seus custos. De forma geral, os contratos de energia são atualizados pelo IPCA (raramente pelo IGP-M), mesmo assim existem maneiras de se negociar contratos sem sequer a aplicação destes índices inflacionários.

Por outro lado, os encargos tornam-se de difícil previsão e pode ser o ponto desfavorável do mercado livre de energia com relação a previsão orçamentária. No entanto, a representatividade dos encargos é bastante pequena no gasto total de energia do consumidor e o impacto é relativamente pequeno. Importante reforçar que a tarifa do fio, cobrada pela distribuidora, continua sendo regulada pela ANEEL e de difícil previsão.

As bandeiras tarifárias deixam de existir no mercado livre de energia. Apesar das bandeiras terem uma forte correlação com os encargos cobrados, ainda assim parte dos encargos não estão relacionados com a bandeira tarifária.

O gerenciamento relacionado ao uso da rede de distribuição e transmissão (custo do fio) também permanece o mesmo. Ou seja, o consumidor ainda precisa avaliar qual a modalidade tarifária (azul ou verde) que é melhor para o seu perfil de consumo (para aqueles consumidores que podem fazer esta opção), além de otimizar o valor da demanda contratada e controlar a energia reativa injetada no sistema. A energia reativa pode gerar cobranças adicionais para os consumidores.

VANTAGENS E DESVANTAGENS DO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

AS VANTAGENS DO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

Considerando a discussão até este momento, diversas vantagens e desvantagens já devem ter sido inferidas, mas iremos analisar elas uma por uma.

VANTAGENS DO MERCADO LIVRE DE ENERGIA
LIVRE ESCOLHA DO FORNECEDOR

No mercado livre de energia, o consumidor pode escolher livremente seu fornecedor. Isto permite a execução de estratégias comerciais, que podem em muitos casos, até estreitar laços com os respectivos clientes.

ISENÇÃO DA BANDEIRA TARIFÁRIA

No mercado livre de energia não existe a incidência das bandeiras tarifárias. No entanto, existe forte relação da bandeira tarifária com os encargos a serem pagos no mercado livre de energia.

PREVISÃO ORÇAMENTÁRIA

É possível se ter uma previsão orçamentária mais acurada no mercado livre de energia conforme as necessidades do consumidor. O mais usual é que os contratos de compra de energia sejam atualizados pelo IPCA, mas existem opções disponíveis no mercado onde o preço permanece fixo.

DESENVOLVIMENTO DE ESTRATÉGIAS COMERCIAIS

As estratégias comerciais aplicadas na compra de qualquer insumo direto poderão ser aplicadas na compra de energia no mercado livre de energia.

GERENCIAMENTO DA ENERGIA ELÉTRICA COMO MATÉRIA PRIMA

A compra da energia elétrica pode receber a mesma tratativa que outros insumos e matérias-primas possuem em uma empresa. É muito comum a energia passar a fazer parta da ‘lista de materiais’ dos produtos fabricados e ser gerenciado através do MRP (Manufacturing Resource Planning ou Material Requirements Planning) da empresa.

EXTREMA RELEVÂNCIA PARA A INDÚSTRIA BRASILEIRA

Atualmente, mais de 80% da energia consumida pela indústria no Brasil é adquirida através do mercado livre de energia. Esta participação mostra como a compra de energia no mercado livre de energia é atrativa para este setor.

PREÇOS MAIS COMPETITIVOS

O preço da energia no mercado livre de energia é mais atrativo que as tarifas de energia praticadas pelas distribuidoras de energia, o que gera economias para as empresas.

ENERGIA PARA EMPRESAS DO MESMO GRUPO

No mercado cativo, só é possível adquirir energia da distribuidora responsável pelo fornecimento de energia na região de cada unidade consumidora. No mercado livre de energia, existe a possibilidade de fazer negociações consolidadas para todas as unidades da empresa, ou empresas do mesmo grupo econômico.

COMPRA DE ENERGIA RENOVÁVEL

No mercado livre de energia é possível comprar energia renovável, como energia solar e eólica. Isto colabora com as estratégias de sustentabilidade das empresas.

SEM DISTINÇÃO DE TARIFA PONTA E FORA PONTA NO CONSUMO DE ENERGIA

A energia elétrica consumida deixa de ficar sujeita a variações de preço no horário de ponta e fora ponta. Para as tarifas relacionadas ao uso do sistema de distribuição esta diferença continua existindo, mas não para a parcela da energia. No mercado livre de energia, o preço da energia é diferente em cada hora do dia, mas existem contratos de energia que protegem os consumidores destas variações.

TENDÊNCIA ECONÔMICA MUNDIAL

O mercado livre de energia é uma realidade há anos em diversos países como Chile, EUA, Inglaterra, França, Alemanha e Japão. Nestes países o mercado livre de energia tem apresentado muito sucesso, tornando-se uma tendência econômica mundial.

AS DESVANTAGENS DO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

 
LIMITAÇÃO DE MIGRAÇÃO

Não são todos os consumidores que podem migrar para o mercado livre de energia. Atualmente, somente consumidores com demanda contratada acima de 500kW que podem migrar.

COMPLEXIDADE TÉCNICA E REGULATÓRIA

O mercado livre de energia traz uma grande complexidade técnica e regulatória que são difíceis de serem acompanhadas pelos consumidores, já que estes não possuem a energia como sendo o seu core business. Por este motivo é importante o consumidor estar assessorado no mercado livre de energia.

AUMENTO DAS OBRIGAÇÕES FINANCEIRAS

Enquanto no mercado cativo o consumidor precisa pagar somente a fatura da distribuidora para determinada unidade consumidora, no mercado livre de energia existem mais obrigações financeiras ao longo do mês.

VARIAÇÕES NOS PREÇOS DE MERCADO

Apesar dos preços serem mais atrativos de forma geral, no mercado livre de energia o preço da energia apresenta uma volatilidade muito grande. Ou seja, o preço da energia varia muito ao longo do tempo, sendo que em alguns instantes, o custo da energia no mercado livre de energia pode estar acima do custo no mercado regulado.

MERCADO LIVRE DE ENERGIA E A ANEEL

Historicamente, o serviço de fornecimento de energia elétrica era realizado pelo governo, que garantia a geração e entrega da energia para todos os consumidores. Esta situação era comum no Brasil e em diversos outros países. No entanto, com o crescimento populacional e das sociedades, os recursos dos governos passaram a não ser suficientes para o atendimento a todo o mercado, sendo necessária a participação de capital privado para garantir o fornecimento de energia para todo o país.

Neste momento, as empresas distribuidoras de energia passaram por um processo de privatização que ainda está inacabado no Brasil. Além disso, foram criados mecanismos para que empresas pudessem entrar no negócio de geração de energia.

Acompanhando estas mudanças, para garantir a acessibilidade a energia elétrica ao menor custo possível, foi necessária a criação da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica) para regular e controlar os agentes privados que podem influenciar os custos de energia elétrica. Desta forma, a ANEEL foi criada no primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, através da Lei nº 9.427/1996 e do Decreto nº 2.335/1997. A ANEEL é enquadra-se como uma autarquia em regime especial que está vinculada ao MME (Ministério de Minas e Energia). O regime especial que esta autarquia se enquadra é de agência reguladora, assim como ocorre com a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Biocombustível e Gás Natural), ANA (Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico), entre outras.

A responsabilidade da ANEEL inclui, mas não se limita a regular e fiscalizar a produção, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica no Brasil, seguindo a legislação aplicável. As atividades de regulação são totalmente exercidas pela própria ANEEL, mas as atividades de fiscalização podem ser delegadas para agências estaduais, como é o caso da ARSESP (Agência Reguladora de Serviços Públicos no Estado de São Paulo), que é responsável pela fiscalização no estado de São Paulo.

O vídeo abaixo  explica as responsabilidades e atribuições da ANEEL.

O mercado livre de energia está muito relacionado com as atividades de regulação e fiscalização da comercialização da energia.

RESOLUÇÃO ANEEL Nº 265/98

A Resolução ANEEL nº 265/98 estabeleceu as condições básicas para comercialização de energia elétrica no Brasil, sendo necessário autorização para comercializar energia elétrica no mercado livre de energia. Esta resolução permitiu que uma série de agentes econômicos pudessem comercializar energia, sendo eles:

  • Empresas comercializadoras de energia
  • Importadores e exportadores de energia
  • Produtores independentes
  • Permissionários e concessionários de serviço de distribuição de energia
  • Geradores de energia

Esta resolução aumentou consideravelmente as opções de compra de energia pelos consumidores, já que até o momento só era possível comprar energia elétrica da distribuidora local.

RESOLUÇÃO NORMATIVA ANEEL Nº 414/10

Esta resolução atualizou e consolidou as condições de compra e venda de energia entre consumidores e distribuidoras. Além disso, diversos aspectos do mercado livre de energia foram definidos e padronizados para todas as distribuidoras. Esta resolução deixou mais claro os direitos e deveres das distribuidoras e consumidores, tornando o processo de migração e existência de um consumidor no mercado livre de energia mais simples e seguro.

RESOLUÇÃO NORMATIVA ANEEL Nº 470/11

Em 2011 foi estabelecida a criação da ouvidoria da ANEEL, abrindo um canal de comunicação mais direto com os consumidores. Dentre os objetivos da ouvidoria está o de acompanhar situações nas quais as distribuidoras não tenham cumprido com os deveres estipulados, fazendo o papel de representante dos consumidores perante a distribuidora.

RESOLUÇÃO NORMATIVA ANEEL Nº 1.000/21

Esta resolução foi publicada com o intuito de consolidar a regulação aplicável para os consumidores de energia, além de atualizar alguns pontos e deixar mais claro alguns outros, colaborando para o funcionamento harmônico do mercado livre de energia.

RESOLUÇÃO NORMATIVA ANEEL Nº 1.014/22

Através desta resolução a ANEEL atualizou os requisitos para obter e manter as autorizações para comercializar energia elétrica. O objetivo central foi o de trazer mais segurança ao mercado por ser mais exigentes com os requisitos mínimos para comercializar energia. Isto trouxe mais segurança para o mercado e os consumidores de energia elétrica no mercado livre de energia.

MERCADO LIVRE DE ENERGIA E A CCEE

O Brasil teve duas tentativas de regular e fiscalizar a comercialização de energia elétrica no país. A primeira delas foi a ASMAE (Administradora de Serviços do Mercado Atacadista de Energia), que foi sucedida pela MAE (Mercado Atacadista de Energia). Foi somente em 2004 que a CCEE foi criada, sucedendo a antiga MAE, através da Lei nº 10.848/2004 e regulamentada pelo Decreto ANEEL nº 5.177/2004, viabilizando o mercado livre de energia no Brasil.

Dentre as principais responsabilidades da CCEE, vale ressaltar:

  • Apuração e liquidação mensal do Mercado de Curto Prazo (MCP)
  • Coleta da medição de consumo e geração de todos os agentes
  • Registro dos contratos de todos os compra e venda de energia no mercado regulado e mercado livre de energia
  • Apuração e publicação do PLD (Preço da Liquidação das Diferenças)
  • Gerenciamento de contas setoriais (por exemplo CCC, CONER, CDE e RGR)
  • Monitoramento da dos agentes
  • Execução de leilões de compra de energia e MVE (Mecanismo de Venda de Excedente) das distribuidoras

Para o consumidor, caso ele esteja no mercado livre de energia, ele terá que obrigatoriamente fazer parte da CCEE, o que o faz participar do quadro associativo da CCEE. Existe uma exceção que são os consumidores que estão no mercado livre de energia na modalidade varejista. Esta é uma modalidade simplificada de participar do mercado livre de energia na qual não é necessário fazer a adesão na CCEE, mas muito menos atrativa para os consumidores.

Para o consumidor que faz parte da CCEE, existem diversas obrigações que devem ser respeitadas, sendo elas:

  • Respeitar o estatuto social da CCEE, a convenção de comercialização de energia, regras, procedimentos e demais normas do setor elétrico
  • Realizar as atividades operacionais dentro dos prazos estabelecidos pela CCEE
  • Registrar todos os contratos de compra e venda de energia no mercado livre de energia (e no mercado regulado, já que pode ocorrer em situações excepcionais)
  • Cumprir com todas as obrigações financeiras da CCEE
  • Acompanhar os relatórios, comunicados e dados publicados pela CCEE
  • Atender às solicitações de auditoria desenvolvidas na CCEE
  • Manter dados cadastrais atualizados
  • Aderir à convenção arbitral para a resolução de conflitos

Por outro lado, os consumidores associados na CCEE passam a ter uma série de direitos, que estão listados abaixo:

  • Participar e votar nas assembleias gerais
  • Acessar os sistemas disponíveis referente a operacionalização do mercado
  • Solicitar e receber informações das operações própria de comercialização de energia desenvolvidas pela CCEE
  • Participar do MVE
  • Participar dos treinamentos on-line e presenciais oferecidos pela CCEE
  • Requerer a convocação de assembleias gerais, mediante anuência de um quinto dos membros da CCEE

Para que o consumidor possa fazer sua adesão como agente na CCEE, e assim participar do mercado livre de energia, é necessário passar por um longo e complicado processo, conforme ilustra de forma resumida a imagem abaixo.

FLUXO MIGRACAO PARA MERCADO LIVRE DE ENERGIA

No processo de adesão do consumidor na CCEE, após denunciar o contrato de compra de energia no mercado cativo com a distribuidora, é necessário fazer o cadastro básico no sistema da CCEE. Na sequência, é possível gerar o boleto com a taxa de adesão que deve ser pago. Quando a CCEE identificar o pagamento da taxa de adesão, a CCEE libera o sistema para realizar a habilitação técnica e a habilitação comercial, sendo estas as duas etapas a serem cumpridas para a adesão do consumidor na CCEE.

A habilitação técnica são as atividades necessárias para que a CCEE identifique a ou as unidades consumidoras que estarão no mercado livre de energia. Isto possibilitará que a CCEE tenha acesso aos dados de consumo daquela unidade, já que estes serão utilizados na apuração do MCP. Além disso, existe o mapeamento do ponto de conexão daquela unidade na rede elétrica, para que seja possível fazer outras considerações e apurações, como por exemplo, a perda que ocorre no transporte de energia no Brasil.

A habilitação comercial tem como finalidade cadastrar o consumidor como agente na CCEE. Diversos documentos e atividades são necessárias para cumprir esta etapa, conforme detalhado abaixo:

  • Assinatura do ‘termo de adesão’ e do ‘termo de adesão a convenção arbitral’
  • Apresentação de Certidão Negativa de Falência e Recuperação Judicial e Extrajudicial
  • Apresentação da declaração ou comprovante de adimplemento com a distribuidora local (e/ou com o ONS)
  • Abertura de conta em banco indicado para as liquidações financeiras

O MEDIDOR DE ENERGIA NO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

O medidor é um instrumento de extrema importância para o mercado livre de energia. Considerando que a CCEE faz a apuração do MCP, onde é comparado os contratos de compra com o consumo de energia dos consumidores, caso haja qualquer leitura incorreta do consumo de energia, trará impactos financeiros para o consumidor. Desta forma, existe a necessidade de uma atenção especial ao medidor de energia.

Como visto anteriormente, para que o consumidor migre para o mercado livre de energia, ele deve ingressar na CCEE, tornando-se parte do seu quadro associativo. Um elemento importante no processo de adesão de um consumidor à CCEE é o processo de habilitação técnica, que permitirá identificar seu(s) ponto(s) de medição e, dessa forma, obter seu consumo que será utilizado na liquidação do MCP.

Nesta fase, o ou os pontos de medição do consumidor são mapeados e aprovados. Por fim, será necessário adequar o SMF (Sistema de Medição para Faturamento) de cada unidade do consumidor para que a CCEE possa ter acesso aos dados de consumo de energia. Essa adaptação é conhecida no setor elétrico como adequação ou configuração do SMF.

A adequação do SMF possui responsabilidades que são compartilhadas entre o consumidor e a sua distribuidora. Por este motivo, durante o processo de migração ao mercado livre de energia, dentro das tratativas com a distribuidora, é necessária a assinatura do ‘termo de pactuação de adequação do SMF’. Em resumo, neste termo, tanto o consumidor como a distribuidora se comprometem a realizar as atividades de responsabilidade de cada parte e dentro dos prazos estipulados, conforme o projeto de migração daquele consumidor.

As atividades que serão necessárias serem feitas pelo consumidor depende do modelo do medidor e da distribuidora responsável pela unidade. No mercado livre de energia, a distribuidora é o agente de medição responsável por coletar a medição de cada unidade e enviar para a apuração da CCEE. Desta forma, a distribuidora utiliza os dados de medição para as cobranças do serviço de distribuição, mas que impacta também a situação do consumidor no mercado livre de energia. O custo do medidor cabe a distribuidora, sendo de responsabilidade do consumidor preparar a instalação para a troca ou ajuste do medidor.

Após o SMF estar configurado, é possível que os dados de medição sejam enviados para a CCEE, através do seu sistema chamado SCDE (Sistema de Coleta de Dados de Energia). Dentre outras atribuições, o SCDE é responsável por coletar e armazenar os dados de consumo de energia dos consumidores que estão no mercado livre de energia. Os dados são disponibilizados em intervalos de 5 minutos para cada unidade consumidora e posteriormente integralizados para intervalos de uma hora. Isto pode trazer uma riqueza na informação de consumo de energia bastante valiosa para o consumidor, para realizar por exemplo projetos de eficiência energética.

A coleta de dados pode ser feita de forma ativa, onde o SCDE acessa os dados do medidor, ou de forma passiva, quando os dados são enviados pela distribuidora através de upload de dados. Os dados são coletados diariamente, sempre buscando os dados do dia anterior. No entanto, por diversos motivos estes dados podem estar incorretos, ou pode haver falha de comunicação impedindo a coleta deles. Nestes casos, a distribuidora pode fazer um ajuste nos dados de medição uma única vez para um mês que tenha se encerrado imediatamente.

Antes de serem utilizados no processamento do MCP, os dados de medição brutos passam por duas etapas de processamento chamadas de ‘Mediação Física’ e ‘Medição Contábil’.

Durante a etapa da Medição Física, todos os dados de consumo são identificados para cada consumidor, assim como eventual geração que ele possa ter. O resultado desta etapa do processo é o consumo de energia do consumidor.

Na etapa de Medição Contábil, os dados de consumo de cada consumidor são preparados para a apuração do MCP. Dentre outras considerações, é nesta etapa em que é apurada a perda técnica que existe no transporte da energia em todo o Brasil. Salve exceções, esta perda é igualmente dividida para os agentes de geração e de consumo. Ou seja, os consumidores possuem o seu montante de consumo aumentado ligeiramente ao incluir a perda do transporte da energia.

EMPRESAS NO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

Quando o consumidor é cativo e está no Ambiente de Contratação Regulado (ACR), o seu relacionamento com empresas do setor se baseia exclusivamente com a sua Distribuidora ou Transmissora de energia elétrica ao qual está conectado.

No ACR, o relacionamento do consumidor com a sua prestadora de serviço (Distribuidora ou Transmissora de energia elétrica) se dá basicamente pelo pagamento mensal de sua conta de energia e ocasionalmente quando ocorre alguma falta de energia, necessidade de manutenção ou alguma alteração nos parâmetros contratuais.

Ao migrar para o Ambiente de Contratação Livre (ACL) o Consumidor Livre passa a ter relacionamento também com outras empresas do setor elétrico como os geradores e/ou comercializadores de energia elétrica e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

O mundo físico ao qual o consumidor estava acostumado não vai se alterar. Ele continuará recendo sua energia de sua Distribuidora local (alguns consumidores estão conectados diretamente na transmissora e isso também não se altera quando ele migra para o Mercado Livre de Energia).

A Distribuidora por sua vez recebe a energia por meio de uma Transmissora, que transporta a energia produzida por um ou mais Gerador de energia elétrica.

O que muda para o Consumidor Livre é o seu mundo comercial, com a possibilidade de adquirir a sua energia de outro fornecedor (diretamente do Gerador ou por intermédio de um Comercializador) e não mais obrigatoriamente de sua Distribuidora. Essa compra de energia entre o consumidor e o Gerador pode ser negociada de maneira bilateral, sendo as condições comerciais livremente negociada entre as partes.

A seguir descrevemos com um pouco mais de detalhes cada uma dessas empresas que atuam no Mercado Livre de Energia.

 

GERADORES

Existem diversos tipos de geradores de energia elétrica com as mais diversas tecnologias para a geração da energia:

  • Usina hidroelétrica (grandes ou Pequenas Centrais Hidrelétricas – PCHs): utiliza a força da água para produzir energia elétrica;
  • Usina eólica: utiliza a força dos ventos para gerar energia elétrica;
  • Usina solar: utiliza a radiação solar para gerar energia elétrica;
  • Usina nuclear: utiliza a energia liberada pela fissão nuclear de átomos de urânio;
  • Usina térmica: utiliza a energia térmica de combustíveis (fósseis ou biomassa) para a produção de energia elétrica.

As usinas hidroelétricas são as mais comuns e mais utilizadas e ainda representam um percentual relevante da matriz energética do Brasil, entretanto, as usinas eólicas e solares sofreram uma expansão muito acentuada nos últimos anos e estão se tornando cada vez mais significativas, mas independentemente do tipo de usina, todas elas estão aptas a fornecerem energia para o Consumidor Livre (com exceção das usinas nucleares).

 

DISTRIBUIDORAS

A principal função das Distribuidoras de energia é distribuir a energia que recebe da transmissora para os seus clientes: residências, comércios, hospitais, indústrias, etc. Sejam eles Consumidores livres ou Cativos.

As Distribuidoras só podem adquirir a sua energia por meio do Leilões regulados realizados pela CCEE em conjunto com a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e acabam repassando os seus custos para os consumidores.

 

COMERCIALIZADORAS

As Comercializadoras compram energia de Geradores ou de outras Comercializadoras e revendem essa energia para os Consumidores Livres ou outras Comercializadoras. É possível também as Comercializadoras comprar a sobra de energia de Consumidores Livres por meio da cessão de energia.

Outra possibilidade de compra de energia pelas Comercializadoras é o Mecanismo de Venda de Excedentes – MVE, que corresponde à venda de eventuais sobras de energia das Distribuidoras.

Dessa forma, as Comercializadoras servem como intermediadores na compra e venda de energia elétrica e proporcionam liquidez ao mercado. Em geral elas possuem uma política de risco mais flexível e têm condições de oferecer produtos mais diferenciados e customizados aos seus clientes.

Entretanto, o Consumidor Livre ao adquirir energia de uma Comercializadora, deve levar em consideração além do preço (que pode ser superior ao comparado se comprasse diretamente do Gerador) também a questão da garantia de fornecimento, uma vez que a Comercializadora deverá cumprir com o atendimento do seu contrato durante toda a sua vigência e não pode encerrar suas operações no meio do contrato e deixar o Consumidor Livre descontratado e tendo que comprar energia no mercado de curto prazo – Spot.

CCEE

Outra empresa do setor elétrico que o consumidor passará a se relacionar com frequência é a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), sendo necessária a sua adesão nesta câmara para que ele efetive a sua migração para o Mercado Livre de Energia.

O consumidor agente da CCEE deverá estar apto a cumprir a legislação vigente como as Regras de Comercialização e os Procedimentos de Comercialização.

 

PREÇO DA ENERGIA NO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

Uma das principais vantagens que Consumidor Livre passa a contar quando migra para o Mercado Livre de Energia é poder escolher o seu fornecedor de energia e negociar bilateralmente as condições comerciais do seu contrato de compra de energia.

Além de parâmetros técnicos da compra de energia como montante, prazo, tipo (Incentivada ou Convencional), flexibilidade e sazonalização, o Consumidor Livre também poderá negociar o preço pelo qual vai pagar pela sua energia.

O preço da energia pode variar muito num curto espaço de tempo e essa variação pode ocasionar riscos para o Consumidor Livre, caso ele não esteja devidamente contratado e corretamente assessorado por uma consultoria competente, que realize uma estratégia adequada de contratação e possua uma avaliação de risco aderente ao perfil do cliente.

Adicionalmente, o acompanhamento meteorológico ainda é fundamental na busca de uma previsibilidade de variação de preços, uma vez que no Brasil a matriz energética ainda depende muito da hidrologia e os preços são muito impactados pelo regime de chuvas.

Quando o consumidor está no Ambiente de Contratação Regulado (ACR) o preço que ele paga pela sua energia compõe uma parcela do que é cobrado na conta de sua Distribuidora local. Além da energia, o Consumidor Cativo paga pelo uso do sistema de distribuição (fio), encargos, tributos e eventuais bandeiras tarifárias, conforme descrito na figura a seguir.

ESTRUTURA DE CUSTO MERCADO CATIVO DE ENERGIA

 

A Concessionária compra a energia para distribuir para os seus clientes por meio dos leilões regulados realizados pela CCEE, por delegação da ANEEL, e repassa os custos de aquisição para os seus clientes.

No Ambiente de Contratação Livre (ACL) o Consumidor Livre, conforme já exposto, negocia livremente o preço da sua energia. Além do custo da energia, o consumidor do Mercado Livre de Energia continuará pagando pelo uso do fio de sua Distribuidora, além dos tributos e encargos proporcionais ao seu consumo.

Outro custo será o da consultoria que irá realizar a gestão do Consumidor Livre nas mais diversas atividades como contratação de energia, análise de risco, relatórios gerenciais e representação na CCEE.

A diferença do somatório desses custos em comparação com os custos do ACR, será a economia que o Consumidor Livre terá no Mercado Livre de Energia, conforme ilustração abaixo.

ESTRUTURA DE CUSTO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

Pelo exposto, fica claro a importância do preço pelo qual o Consumidor Livre pagará no Mercado Livre de Energia, pois quanto mais barato ele conseguir adquirir a sua energia, maior será a sua economia comparado aos custos do Mercado Cativo.

Importante ressaltar que caso o Consumidor Livre compre a sua energia em momentos nos quais o preço esteja muito elevado, é possível até mesmo que o seu custo no ambiente livre fique superior às despesas dele no ambiente cativo.

O Consumidor Livre pode pagar caro pela sua energia quando no momento em que for realizar a compra o preço conjuntural esteja elevado, por exemplo, no período de Escassez Hídrica sofrido em 2021. Nessas circunstâncias, o consumidor não terá muita opção, pois todos os fornecedores de energia estarão com preços elevados.

Outra situação em que o Consumidor Livre pode pagar caro pela sua energia é ficar exposto no mercado de curto prazo (spot), ou seja, ficar total ou parcialmente descontratado num período fazendo com que o seu consumo fique superior ao seu contrato de compra de energia. O déficit entre o consumo e o contrato será valorado ao Preço da Liquidação das Diferenças (PLD) na CCEE, podendo ocasionar um custo muito elevado ao consumidor.

Uma das funções da CCEE é apurar diariamente o PLD horário por meio de modelos computacionais e disponibilizar os resultados e a base de dados para que os agentes consigam reproduzir o cálculo.

Os modelos matemáticos utilizados para o cálculo do PLD são o NEWAVE, DECOMP e o DESSEM. O PLD é calculado por submercado (Sudeste/Centro-Oeste, Sul, Nordeste e Norte) e o seu resultado é divulgado em R$/MWh.

Mensalmente a CCEE realiza o processamento da contabilização mensal do Mercado de Curto Prazo, apurando o balanço energético de todos os agentes. No caso dos Consumidores Livres, a câmara apura as sobras e déficits horários comparando o seu recurso (contratos de compra e eventuais cessões de energia) com o seu requisito (consumo) e a diferença é multiplicada pelo PLD daquela hora e submercado no qual o consumidor esteja localizado.

Os montantes horários são totalizados em valores mensais e somados aos encargos e outros possíveis ajustes financeiros para se chegar na contabilização final do Consumidor Livre na CCEE.

COMPRAR ENERGIA NO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

Conforme exposto, o preço pelo qual o Consumidor Livre pagará pela sua energia determinará o seu percentual de economia comparado ao Mercado Cativo e caso ele não adquira a sua energia a um preço adequado o seu custo no mercado livre de energia poderá até mesmo ser superior ao comparado a aquele se ele se mantivesse no ACR.

Para adquirir a energia pelo menor preço possível é fundamental que o Consumidor Livre tenha ao seu lado uma consultoria competente para realizar uma análise de risco adequada ao seu perfil e juntos determinem a melhor estratégia de contratação de energia.

 

PRAZO E COBERTURA CONTRATUAL

A determinação do perfil de risco de cada cliente é fundamental para alinhar como se dará a compra de energia.

Para aqueles clientes mais conservadores pode ser uma boa estratégia “travar” o preço da energia de boa parte de seu consumo por um período mais extenso, realizando a compra com determinada antecedência.

Nessa estratégia de contratação de mais longo prazo e que cubra boa parte ou a totalidade de sua carga, o consumidor pode não aproveitar eventuais oportunidades de preços momentaneamente descontados, mas também não ficará exposto a uma eventual escalada de preços (exemplo de momentos de Racionamento ocorrido em 2001 ou o período de Escassez Hídrica de 2021).

Se por um lado a compra de energia por um período mais longo pode não proporcionar a maior economia possível, por outro lado, se o preço de aquisição for adequado, o consumidor poderá ficar mais tranquilo sabendo que conseguirá um patamar razoável de economia, sem correr os riscos das variações de preços do mercado spot.

Para o Consumidor Livre com perfil de risco mais agressivo é possível utilizar estratégia de contratação com vigências mais curtas e/ou que cubram determinado percentual de sua carga. Assim, é possível se aproveitar de momentos específicos nos quais os preços estejam muito descontados e otimizar o seu nível de economia. Por outro lado, caso os preços subam e ele esteja descontratado, o consumidor precisará se contratar ao preço spot, sob risco de não o fazendo, de ficar exposto na CCEE ao PLD e também a penalização por Insuficiência de Lastro de Energia.

Existe também um meio termo que poderá ser considerado como perfil Moderado, onde uma parte do consumo fica coberta a um preço pré-determinado e outra parte fica exposta a contratação de mais curto prazo, visando aproveitar as eventuais oportunidades que possam surgir.

MOMENTO DA COMPRA

Além da estratégia de prazo e cobertura contratual exposta acima, outro aspecto primordial na contratação de energia é a determinação do melhor momento para a aquisição, pois de nada adiantará comprar por prazos e montantes apropriados se o preço não estiver adequado.

PARÂMETROS DA COMPRA

Existem diversos parâmetros que devem ser definidos na compra de energia elétrica, entre eles o montante a ser contratado (qual o percentual do consumo que será contratado), a sazonalização (perfil do consumo pelos meses do ano), flexibilidade (banda inferior e superior que o consumo poderá variar mensalmente), necessidade ou não de apresentar Garantia Financeira, vencimento das faturas, entre outros parâmetros.

 

POSSÍVEIS FORNECEDORES

Importante determinar também quem serão os possíveis fornecedores que participarão da tomada de propostas para a venda de energia para o consumidor. Existem diversos fornecedores (geradores e comercializadoras) que poderão vender energia para o consumidor.

Os Consumidores Livres podem comprar a sua energia diretamente dos geradores, sem intermediários. Os geradores possuem uma estrutura mais robusta e são geralmente de grande porte.

No passado os geradores tinham uma gama limitada de produtos a serem oferecidos aos clientes, mas com a evolução do Mercado Livre de Energia os geradores passaram a oferecer diversos produtos que visam atender as necessidades dos mais variados clientes.

As Comercializadoras intermedeiam a compra e venda de energia e os seus preços podem ser ligeiramente superiores aos dos geradores, entretanto, elas possuem maior flexibilidade para oferecerem alguns produtos mais diferenciados e customizados.

Pelo fato de as comercializadoras não possuírem ativos, deve-se verificar com precaução a contratação de energia por prazos mais longos para que o consumidor não corra o risco de ficar descontratado, principalmente em momentos de preços elevados, caso a comercializadora esteja passando por alguma dificuldade financeira e não consiga cumprir o seu contrato de fornecimento de energia.

TOMADA DE PROPOSTAS

A forma que será realizada a tomada de propostas de venda de energia para o Consumidor Livre também é muito importante de ser definida de forma antecipada.

Existem diversas formas de realizar uma RFQ (Request for Quotation). Pode-se solicitar uma proposta indicativa para posteriormente solicitar uma proposta firme, sendo possível a realizar a RFQ em uma ou mais rodadas.

Independentemente da forma da tomada de propostas, é fundamental a transparência em todo o processo e que o Consumidor Livre sinta-se amparado e seguro para a tomada de decisão.

ASSESSORIA PARA A COMPRA DE ENERGIA

Existem diversas estratégias de contratação que a gestora pode utilizar e tem que ver aquela que melhor se encaixa para da cliente, levando-se em consideração o seu perfil.

Dessa forma, a sua gestora de energia deverá ter expertise para determinar todos os parâmetros do(s) contrato(s), alinhar os melhores fornecedores e acompanhar e determinar o(s) melhor(es) momento(s) para a aquisição de energia.

ENERGIA SOLAR NO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

A matriz energética brasileira tem a característica de ser composta em grande parte por fontes renováveis de energia.

O Brasil tem um tamanho continental e o privilégio de possuir diversos recursos naturais que podem ser utilizados para a geração de energia elétrica. Com muitos rios e seus afluentes, as usinas hidroelétricas foram e continuam sendo as principais fontes de energia do país.

Entretanto, essa forte dependência da hidrologia fez com que em 2001 passássemos por um período de racionamento de energia elétrica uma vez que a geração não era suficiente (devido ao baixo volume das chuvas) para atender o consumo.

Na época do racionamento foram determinadas metas de redução do consumo para evitar a falta e o corte no fornecimento de energia elétrica. Isso teve grande impacto na produção industrial, no comércio e no PIB brasileiro causado pela redução forçada da carga.

Pelo exposto, ficou evidente a necessidade de investimentos em outras fontes de energia elétrica de maneira ao Brasil diversificar a sua matriz energética.

Dessa forma, outras fontes de energia passaram a ganhar destaque na geração de energia elétrica no território nacional. Com diversos locais no país com regime constante de vento e forte radiação solar, as fontes eólicas e solares vêm passando por uma evolução muito relevante e atualmente servem como um importante complemento à geração hidroelétrica.

A diversificação que está ocorrendo na matriz energética brasileira foi motivada justamente para reduzir a nossa dependência extrema do regime de chuvas e dar maior segurança e garantia de fornecimento de energia elétrica para os consumidores brasileiros.

Nesse contexto, a energia solar é a fonte energética que vem sofrendo a maior expansão recente no país, tanto na produção em larga escala com as fazendas de usinas fotovoltaicas como também pela geração em baixa escala com a instalação de placas solares em residências, comércios e algumas indústrias, aproveitando os espaços disponíveis sobre os seus telhados.

A geração em baixa escala compõe a geração distribuída, que tem como grande vantagem a simplicidade do sistema e as baixas perdas uma vez que ponto de geração e consumo estão próximos um do outro. Por outro lado, devido ao menor porte, tendem a apresentar um custo mais elevado em R$/MWh quando comparado com as grandes usinas.

Na geração distribuída, o consumidor ainda permanece no Mercado Cativo. Entretanto, a energia fotovoltaica também tem um relacionamento relevante com o Mercado Livre de Energia, uma vez que vários Consumidores Livres passaram a produzir energia solar para atender parte ou a totalidade de seu consumo e se tornaram Autoprodutores de energia na CCEE.

Portanto, o autoprodutor pode ter a sua usina solar localizada próxima ao seu consumo (geração local) e a geração é utilizada para abatimento de sua carga e o medidor vai medir apenas o consumo líquido (abatido da geração).

Nesse caso, o autoprodutor terá 2 perfis na CCEE: um perfil de consumo (onde estará modelada a sua carga) e outro perfil de geração (onde estará modelada a sua usina).

Se a geração nesse tipo de configuração for baixa e não tiver injeção de energia na rede da distribuidora, o agente poderá continuar cadastrada na CCEE como Consumidor Livre e o seu consumo será líquido da geração.

Outra possibilidade de autoprodução é quando a usina está localizada distante do consumo. Nesse caso, existem diversas configurações (modelos de negócios) que podem ser considerados: usina própria, consórcio, SPE (Sociedade de Propósito Específico) ou arrendamento.

Dependendo da configuração, o autoprodutor na CCEE deverá possuir um contrato de repasse da energia da usina para atendimento de sua carga.

GERADOR DE ENERGIA NO MERCADO LIVRE DE ENERGIA

Os Consumidores Livres contam com a possibilidade de gerar parte ou a totalidade de sua energia por meio de geradores.

Existem diversos tipos de geradores e para os mais diversos fins. Dependendo de sua tecnologia e utilização, os principais tipos são aqueles movidos a combustíveis não renováveis (fósseis) e os de fonte renováveis.

GERADORES A COMBUSTÍVEIS NÃO RENOVÁVEIS

Alguns consumidores antes de migrar para o Mercado Livre de Energia utilizam esses tipos de geradores para atendimento do seu consumo no período de Ponta pois, dependendo do custo da tarifa de sua Distribuidora nesse período e do custo do combustível do gerador, poderia ter uma economia no custo de sua energia.

Após migrarem para o ACL, os Consumidores Livres deixam de ter a diferença de tarifa nos períodos de Ponta e Fora da Ponta relacionada a Tarifa de Energia (TE) uma vez que o seu contrato com o novo fornecedor de energia (Gerador) não faz distinção entre os períodos.

Dessa forma, esses consumidores passaram a manter os geradores apenas como backup para utilizar em caso de interrupção momentâneo do fornecimento de energia ocasionado por paradas programadas ou forçadas de sua Concessionária de distribuição.

Neste segmento, os principais geradores são a diesel, gasolina e a gás.

Os geradores a diesel são bem robustos e apesar de terem um custo de aquisição mais elevado, podem compensar em termos de durabilidade e gasto com combustível.

Já os geradores a gasolina em geral são mais simples e costumam ter um custo de aquisição menor, no entanto, necessita-se de uma avaliação criteriosa pois podem não ser a melhor opção do ponto de vista do custo e consumo do combustível e robustez.

Os geradores a gás funcionam normalmente com gás natural, GLP ou biogás e costumam ser utilizados para gerações de maior porte comparados aos geradores a diesel e a gasolina.

Uma vantagem desses tipos de geradores e o controle sobre o momento da geração, eles podem ser utilizados a qualquer momento e não dependem de fatores climáticos (sol, chuva ou vento).

GERADORES DE FONTES RENOVÁVEIS

Além dos geradores a combustíveis fósseis, que podem ser utilizados para suprir a energia nos horários com tarifas mais elevadas (Ponta) e também como backup para eventuais faltas de energia, existem também os geradores de fontes renováveis, esses de maior porte e capazes de suprir boa parte ou a totalidade do consumo.

A principal fonte de geração utilizada pelos Consumidores Livres, pensando em atender parte de seu consumo, é a solar, que utilizam placas fotovoltaicas que geram energia através da radiação solar. Uma característica desse tipo de geração e não poder controlar a quantidade e o momento da geração, pois dependem da disponibilidade do sol.

Vale ressaltar que grande parte dos Consumidores Livres adquirem a totalidade de sua energia diretamente das empresas geradoras, que possuem usinas de grande porte, com estrutura e profissionais capacitados e dedicados exclusivamente para esse fim, sendo capazes de gerar montantes elevados de energia e atender a vários consumidores ao mesmo tempo.

Ricardo Kato

Ricardo Kato

Graduado em Engenharia Elétrica pela UNICAMP, com Pós-Graduação em Administração pela FGV, MBA em Energia pela USP e certificado Black Belt Lean Six Sigma. Atua no Setor Elétrico desde 1999, tendo trabalhado por 13 anos na Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), atuando em diversas áreas da organização. Trabalhou por 7 anos na CPFL Renováveis (líder na geração de energia por meio de fontes renováveis) na área de Comercialização de Energia Elétrica, sendo responsável pela implantação do sistema de comercialização de energia, relacionamento com a CCEE e gestão de 92 usinas. Atuou na estruturação de backoffice de comercializadoras e na gestão de clientes no Mercado Livre de Energia. Professor de cursos sobre o mercado de energia pela FEALQ-USP.

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